VOCÊ TRABALHA COM QUÊ?

por | 13 jul, 2016

Me sinto perdida as vezes por não pertencer a nenhum dos rótulos criados pela sociedade e que muitos me perguntam. Esses rótulos todos foram até estabelecidos de forma natural, mas acontece que eles existem. E eu, como uma exploradora do mundo e que busco a liberdade sempre, não consigo me encaixar neles.

Será isso um problema?

Um problema meu, ou um problema da sociedade? Várias vezes quando quis ser algum deles eu sofri demais, lembro de me sentir profundamente desconectada. Por exemplo, eu adoro falar sobre assuntos de ordem mais liberal, sobre a aceitação de todos, vida mais saudável, sustentabilidade, amor, sincronismo, espiritualidade e outras coisas. Acredito na nova era e em um mundo mais colaborativo, com mais oportunidades e menos preconceito. Até aí tudo bem né?

Eu quase que me encaixaria 100% na tribo dos naturalistas, mesmo porque sou vegetariana. Mas sabe o que percebi? Que eles mesmos se excluem dos capitalistas ou pensam que os outros estão errados por não serem como eles. E isso para mim é um tipo de hipocrisia.

Como posso me dizer uma pessoa inclusiva e receptiva a todos se já me excluo ou me acho melhor que os capitalistas que vivem por dinheiro? Hummm não conseguia fazer 100% parte dessa tribo, mesmo porque acredito que o dinheiro é uma energia, e como toda energia, ela pode ser usado para o bem ou para o mal. Eu escolho usá-la para o bem.

Eu sou a mistura das duas tribos acima, essa é a verdade. É como se tivesse uma parte da essência de cada uma delas em mim. Sim, eu acredito em parto natural, mas não acho que uma criança não deve ter contato com a internet ou com o mundo digital. Sim, eu amo a natureza e adoro fazer trilhas, mas não curto fumar maconha. Sim, eu acredito que temos que ser mais felizes em nossos trabalhos, mas não precisamos ganhar pouco ou quase nada por isso. Sim, eu não uso roupas caras e de marca, mas frequento salão de beleza e gosto de usar perfume. Ou seja:

Eu pertenço a todos os grupos e ao mesmo tempo não pertenço a nenhum.

São infinitas as contradições. Percebi que eles mesmos se rotulam e acabam se tornando tão preconceituosos quanto qualquer outra tribo.

Ai então, vamos pensar nas pessoas de negócios, por que afinal eu amo empreender, certo? Reparo que se acordar um pouco mais tarde que a maioria, estou sendo considerada menos produtiva que eles. Que se eu não tiver um carro bom, significa que não sou bem-sucedida. Percebi que eles almoçam todos no mesmo horário…e no final do dia, também saem todos juntos e correndo, criando o famoso horário de pico.

Se tornam em sua grande maioria grandes reféns do trabalho e eternos estressados no transito e na vida. Vão direto para a academia puxar um pouco de ferro, para aliviar o stress. Mas, acabam ficando mais frustrados por não conseguirem os “gominhos” tão desejados. Eu, de fato não sou dessa tribo, mas amo negócios e empreender. Posso?

Será que mesmo sem se vestir impecavelmente, passar pelas pessoas e mal as cumprimentarem eu ainda posso ser uma mulher de negócios? Será que usar um All Star para trabalhar e sair sorrindo e falando oi para todos me descaracteriza da tribo dos empresários?

Que pena, porque mesmo a minha prioridade não sendo ter status, cargos, títulos, vestir Prada, ir para Nova Iorque todos os anos ou mesmo ser uma diretora executiva de multinacional; eu ainda passo horas estudando e trabalhando. Com uma única diferença: poder ser sempre eu mesma.

Talvez a minha tribo seja um nova tribo, uma tribo que não existe ainda. A tribo dos sem máscaras, sem hipocrisia, sem discriminação e sem julgamentos.

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E os artistas? Que lindo é falar e conviver com eles, um mundo mais criativo e mais colorido. Tudo é belo, tudo é livre. Eu amo aprender com os artistas. Posso viajar nos seus papos filosóficos e nas suas músicas. Mas, quase que sem reparar, rapidamente me deparo com seu ego.

Eles começam a falar cada vez mais alto. Suas músicas sempre de “sua” autoria; e seu projeto arquitetônico mal pode ser alterado… Peraí, nesse mundo tão artístico já não sei o que é real e o que é artificial. A verdade oculta suas artes. A minha transparência também não me permite ser eles.

Já estava me esquecendo dos cientistas, dos professores, dos mestres em doutorados e desenvolvedores de software. Seu estilo é fascinante, ficam horas em livros e no final saem com alguma teoria. São como eu, comprariam horas em troca de livros.

A diferença é que eu saio com um aprendizado; onde eles, saem com uma teoria. São tantas teorias que eu não sei como todas podem caber na cabeça. Não leio ou estudo para comprovar nenhuma tese. Leio por que amo. E vou percebendo que me distancio naturalmente deles…

Para mim, a prática sempre foi mais importante que a teoria.

Além claro do ceticismo deles, o fato de precisarem comprovar tudo os tornam cada vez mais cegos para os milagres do mundo. O que seria da vida sem seguir aquela vozinha interior? Na minha busca pelo equilíbrio entre a sanidade mental e a espiritualidade, eu já seria automaticamente eliminada dessa tribo.

E agora? Será que eu posso ser eu mesma? Sem rótulos? Não sei. Não tenho uma tribo. Em todas elas eu me identifico. E ao mesmo tempo me sinto um peixe fora d’agua. Eu tentei fazer parte de todas. Mas não consegui. O que fazer com tanta informação? Onde posso trabalhar para me sentir mais eu? Onde posso sair e ter um papo mais agradável? Não sei.

O que sei é que todas essas respostas estão dentro de mim. Não preciso de lugar nem de tribo. O que preciso é simplesmente ter a coragem de ser eu mesma sempre. Não me importar com os olhares e os julgamentos. Esse espaço provavelmente ainda não existe, esse espaço é conquistado a cada dia. E sobre aquela perguntinha que nunca sei responder e que frequentemente me perguntam:

“Você trabalha com quê? “ Eu vou respondendo: “Eu trabalho com amor. ”

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